A FAMÍLIA

"É preciso fazer realmente todo o esforço possível, para que a família seja reconhecida como sociedade primordial e, em certo sentido, soberana. A sua soberania é indispensável para o bem da sociedade. Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro". (João Paulo II em “Carta às Famílias” / 2 de fevereiro de 1994)
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30 novembro 2013

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A aura de dezembro

                                           O pequeno poeta que em mim habitava em mim se perdeu.

   
Locke chegou cedo para a conversa de domingo. Esquecera de se pentear. Nada falei. Desafiava ele ideias malucas. – Meu camarada, começou, com sua voz cavernosa, estou sem norte. Antes de vir para cá, abri a janela e respirei fundo a aura de dezembro. Das compras profanas ao pensamento em Cristo é de dezembro a melhor seiva da primavera. Olhos brilham e mesmo os desgraçados riem para a vida. Medra fácil a paz, o amor, a tolerância, a indulgência. A fome e a injustiça entram em silêncio no canto das bocas. E Cristo de dezembro foi condenado à morte. Afinal, sabia-se dele, por ouvir falar, nascera filho do Espírito Santo, de Maria, cujo companheiro, o carpinteiro José, assumiu a paternidade. Fora fragmentos, seu passado ficou para sempre obscuro. Não teve infância. Seu séquito era a ralé.

Ao falar um pouco com as mãos e outro tanto com a boca, Locke lembrou, em voz alta, a fama de Cristo milagroso, mágico, orador arrebatador de plateias que pregava contra os interesses do Estado e era chamado de rei. – Ah, meu camarada, o pequeno poeta que em mim habitava se perdeu. Acordei para trechos de um conto de Anatole France em que Pilatos, aposentado, um tanto senil, encontrou um amigo com que ele convivera momentos de glória. Perguntou-lhe este amigo se ouvira falar de um taumaturgo chamado Jesus, Jesus de Nazaré que, sob o seu governo teria sido crucificado. Tal amigo fora apaixonado por uma dançarina que abandonara os bordéis para seguir o taumaturgo. Pilatos pensou algum tempo e respondeu: “Jesus? Jesus de Nazaré? Não... não lembro...”

Como em todas as conversas, aos domingos, raramente invadidas por algum anjo mau, à espera do almoço antecedido, acompanhado e sucedido pelo tinto ou pelo verdasco lusitano, houve um silêncio. Locke jamais falava de cabeça baixa e não era um homem de guardar seriedade em tudo. Tinha um sorriso fácil e franco. – Foi isso que aconteceu, meu camarada, quando abri a janela e aspirei a aura de dezembro. Estavam ali animais pastando ao lado de reis ajoelhados e, ao redor, a ralé, sempre a ralé que em tudo se enfia. Cometi um erro, meu camarada. Era a hora da Manjedoura, não era a hora da Cruz. Foi exatamente isso que fez o pequeno poeta que em mim habitava em mim se perder. Como ser Pilatos? Como esquecer essas coisas, meu camarada? Como separar a manjedoura da Cruz?

Wanderley Soares

Caderno Colunistas, pág. 4 - Jornal o Sul, Porto Alegre, RS, domingo, 1° de dezembro de 2013

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Foto: Encontrei esta foto, sem menção do autor, no blog “PINTE E BORDE”

15 setembro 2013

Crônica de domingo

As asas dos morcegos
A igualdade era tida como retórica chã, coisa da população
Na falta de histórias minhas, narro as que foram ou são a mim contadas ou por outras pessoas vividas e que, ao acaso, chegam a minha praia. Lembro, pois, de Roant. Ele tinha pouca afinidade com as letras. No entanto, seu verbo vertia fácil e cristalino como a água que jorrava fina de fontes que, durante a minha infância, via brotar entre as pedras junto ao pé de uma montanha e matava a minha sede. Roant dividia o mundo em duas partes separadas por um rio. Contava-me que lá os juízes togados estavam acima dos nossos. Julgavam as elites e organizavam os tribunais das castas inferiores. Ainda lá, a ideia de que, perante a lei, todos os homens eram iguais fora abolida e apenas lembrada como os proscritos princípios de divindades. A igualdade era tida como retórica chã, coisa da população
Como o poder daqueles juízes vigorava nos dois lados, construídos por Roant e que o rio separava, as gentes que do lado de cá viviam passaram a entender como natural e até justo e perfeito o que se derramava das vozes empedernidas daqueles vultos forrados de cetim negro, de cabeças bem penteadas ou lustradas e que, ao final de cada culto, retiravam-se abanando as capas, como asas de morcegos, numa dança que não se sabia se os levavam para um manjar com Deus ou com o Diabo. O certo é que um deles, Deus ou o Diabo, a eles outorgava tais propriedades que a mesma estrela que dos dois lados do rio era vista, ostentava-se sempre mais radiosa no lado de lá. E assim ungido por mistérios, o lado de lá se projetava esotérico, inalcançável, intocável, invencível.
Não havia rancor em Roant. Seu espírito era leve e como habitante do lado de cá dizia que quando julgamento houvesse, seu sonho era o de que todos fossem julgados por seus iguais. Ainda que existindo o rio, os dois lados teriam juízes escolhidos de tal forma que aquela estrela chegasse com luminosidade igual tanto para a corte como para a população. Ele até construía uma alegoria fundada na irresponsabilidade dos poetas. Dizia que toda a mulher que levasse um poeta a morrer de amor deveria por poetas ser julgada. E nesse julgamento valeria toda a prepotência dos poetas. Os defensores defenderiam, mas os acusadores acusariam a vítima. Haveria o princípio de que deveriam ser defendidas todas as formas de fazer morrer por amor. Seriam abolidas a hipocrisia e as asas dos morcegos.
Wanderley Soares
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Transcrito do Jornal O SUL - Porto Alegre, Domingo, 15 de Setembro de 2013 – Caderno Colunistas, página 4
Ilustração: foto do Site “ESBOÇANDO IDÉIAS”

21 julho 2013

Divagações invernais


O feiticeiro
Quando, nos meus invernos, sinto o açoite dos predadores que, sob o pálio imprevisível da Justiça dos homens, ocultam o sol da verdade, lembro destas divagações que há alguns anos publiquei.
    Mesmo para os filhos da boa sorte, o inverno, o nosso inverno aqui do Sul, é nostálgico. Em nossas peregrinações noturnas já não encontramos as mesmas pessoas, e mesmo nas tardes de domingo há uma tendência para a clausura. À cerveja alegre bebida à sombra, sucede o vinho circunspecto dos ambientes fechados. É verdade que o sol de inverno é generoso para o nosso corpo, mas é raro. Seguem-nos, mais amiúde, os dias escuros, as nuvens carregadas, as noites sem astros, as tempestades que assustam. O inverno chega como um velho feiticeiro. Sua figura tem algo de sinistro, mas contém uma mansidão insondável e um brilho pungente nos olhos.
    Para os filhos da má sorte, o inverno chega como um invasor hostil e invencível. Suas legiões não poupam nem o corpo, nem a alma. Nem mesmo chega a ter os movimentos esotéricos do feiticeiro. É, simplesmente, um feitor com poderes de verdugo. A vontade maior é a de fugir, é de ocultar-se para evitar o açoite dos ventos frios. Nos presídios, nos becos, nos cortiços, chega com força maior tecendo pesadelos ao expulsar os ratos de seus ninhos para que invadam os corredores dos desgraçados. Há pouco lirismo no universo dos desabrigados. Resta a eles, ao agasalho do álcool barato, enroscar-se como cães vadios e sonhar com a primavera.
    Com formas e forças diferentes, a teia tecida pelo inverno aprisiona as criaturas. É dolorosa a decisão de partir quando o arvoredo não abriga, mas ameaça, quando as águas estão profundas e barrentas, quando os dias fogem entre as fantasias das nuvens e as noites não têm fim. A partida fica no desejo. É melhor aguardar o sol pleno. São poucas as pessoas que, em fuga, desaparecem. Os adolescentes sentem suas fraquezas, as crianças são vencidas pelos seus temores e até mesmo os loucos não vagam tanto pela cidade. Estranhamente, o inverno hostil torna as pessoas mais próximas entre si, inspira uma nova tentativa de ficar ou de voltar.
    Ainda que agasalhados, o inverno nos leva ao sopé de uma montanha alcantilada entre o belo e o tenebroso. Inevitável a aventura não escolhida. Lembramos, então, nossos invernos mais ternos, quando não foram muitas as tempestades. Percorremos mais o belo do que o tenebroso sob uma brisa gelada e mansa. Assim, creio que devemos viver o outono, a caminho da montanha, confiando que seremos bem protegidos do silêncio dos olhos do feiticeiro. Se forem fortes as tempestades, fiquemos juntos para que os nossos corpos sejam abrigo de nossos corpos, para que não gelem as nossas almas. Sejamos, pelo menos, sob o inverno, animais pacíficos.
Wanderley Soares
Jornal O SUL / Porto Alegre, Domingo, 21 de Julho de 2013.
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Crédito da foto: Andreia Debon
Jornalista, editora do jornal Bon Vivant.

02 junho 2013

A crônica que não é minha

       Começo o mês publicando a crônica de um dos colunistas que muito respeito, embora algumas restrições naturais decorrentes de posições com as quais, nem sempre, compartilho. Todavia, aprecio-o bastante, o que atesta outras belas páginas dele que tenho publicado aqui.

       Chamou-me a atenção, principalmente, as armadilhas da língua que espreitam aqueles que escrevem, ou se expressam oralmente, e nem sempre estão atentos. Ao final ele resume a sua tese, com absoluta propriedade, mencionando um fato atual que de algum modo atingiu a nós todos.

       Mas... vamos à crônica.

Vando
Apenas, excelência?
Havia palavras que ele não considerava inimigas, mas que procurava não cultivar com elas uma aproximação maior.
       O universo real, segundo me falava Frosch, não difere de sonhos e pesadelos. Ocorre estarmos a cismar sobre sonhos ligeiros que, narrados, durariam dias. Aquele velhinho na Índia morreu com 124 anos e dele se pode dizer que viveu 124 anos. Nada mais. Ali, naquele lugarejo, viveu um mulatinho que morreu de apoplexia aos 24 anos e deixou duzentas composições musicais. Assim são as coisas oníricas, assim é o mundo real. Frosch, ao falar, viajava sem rumo definido e contava que as pessoas, na sua fluidez, são como palavras amigas e, outras, ele não considerava inimigas. No entanto, não negava antipatia por alguns vocábulos, como antipáticos são alguns vizinhos com quem cordialmente falava. Para Frosch, tudo se resumia a sonhos e pesadelos. As palavras e as pessoas. A vida.

       Sobre as palavras que envolviam sonhos e pesadelos, Frosch dava exemplos daquelas com a quais guardava, com carinho, um leal distanciamento, sem magoá-las. Uma das que me marcaram e sobre ela até palestras fiz, é "ainda". Frosch recomendou-me que não a tivesse como inimiga, mas nunca como companheira amiga. Deu-me algumas indicações nada complicadas, sem conotações pré ou pós modernas, como aquele encontro entre dois velhos amigos que há muito não se viam e um deles perguntou: "Ainda estás com a Ursulina? - Teus pais ainda estão vivos? - Ainda és caixa do Banco do Brasil?". Ora, Ursulina, feiosa, sempre foi o grande amor do velho amigo, cujos pais eram provectos donos de uma pousada no Morro dos Conventos e ele era caixa laureado do Banco do Brasil.
       Lembrei de Frosch, das palavras e das pessoas amigas e outras não inimigas quando li as ponderações de um desembargador que decidiu pela liberdade de um grupo acusado de envolvimento na morte de 242 jovens no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. Tudo judiciosamente correto e explanado com máxima clareza à luz da lei e da magnanimidade do ilustre togado. No entanto, o magistrado, sem recorrer a Frosch, sobre quem sequer ouviu falar, na justificativa de sua decisão disse: "Hoje, passados quatro meses, o abalo vai se dissipando. Perdura apenas a dor dos familiares, amigos, namorados e dos sobreviventes". Falei com Frosch sobre o pesadelo e ele, num salto, sem que eu pudesse contê-lo, passou a repetir: "Apenas, excelência... apenas, excelência, apenas, excelência?...".  
Wanderley Soares
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Jornal O SUL, Porto Alegre, RS, domingo, 2 de junho de 2013

13 maio 2012

A mão que afaga

De quem mesmo é o dia de hoje?
Wanderley Soares   
Saímos os dois pensando naquela mão amiga e na roupinha azul balouçando na corda do pátio vizinho.
Revelou-me que naqueles tempos nada entendia de madrugadas. Para ele existia o dia para vadiar e as noites para dormir. E quando dormia, o mundo parava. Sequer conseguia chegar a uma leitura de seus sonhos, mas já identificava seus pesadelos, que se resumiam a fugir da perseguição de um cão da vizinhança ou de ser atacado pelos botes rápidos e certeiros dessas aranhazinhas papa-moscas. Sobressaltado, acordava sentindo na testa uma mão amiga que o salvava de cães, aranhas, ratos gigantes e de outros monstros que durante suas vadiagens pareciam pequenos e inofensivos, mas que, durante as febres, cresciam e se tornavam ferozes. Acomodava-se sem abrir os olhos e, mais uma vez, o mundo parava. Não tinha me dado conta de que também eu havia passado por aqueles momentos, como todos nós, afinal. Suas recordações eram de quando chegara aos quatro anos de seu ingresso na humanidade.
Pouco mais do que um menino, começou ele a notar que as pessoas falavam na beira dos fogões, com gosto maior, mais de suas agruras do que em caminhadas por grama fofa, pelas tardes mornas dos outonos. Suas vadiagens, então, não eram as mesmas e sem sentir as dores de um passado em formação e não temer o futuro que lhe parecia eterno, vivia o presente, longe daquelas conversas e sem medo dos cuscos da vizinhança e das aranhas saltadeiras. Chegaram os primeiros amigos e até os primeiros desafetos. Sentia sempre em sua testa aquela mão amiga que o salvara de tantos monstros e que transformou os desafetos em amigos e lhe livrou das febres das primeiras traições. Lembrou que numa tarde viu balouçar na corda de secar roupas, num pátio vizinho, a roupinha azul de uma menina que nunca olhara nos seus olhos. Mas nos seus olhos balouçava aquela roupinha que foi o primeiro sonho que aprendeu a interpretar.
Quando meu bom amigo me falava sobre essas coisas, entre um mate e outro bebericávamos uma caipirinha, sob um outono anunciante de que em breve seríamos invadidos pelo inverno, que nunca foi nosso algoz, apenas cumpria sua missão. Vinha-nos à lembrança as panelas na mesa, os sopões, o feijão mexido e café preto, o carreteiro de charque, o pão feito em casa, o doce de batata doce, o arroz de leite com canela. E sentimos que nada disso terminara. Chegamos nas madrugadas em que o mundo não para. Descobrimos que sonhos e pesadelos estão sempre presentes a rondar nossos dias e noites e que o melhor mesmo é parar o mundo em nossos sonhos. Terminamos nosso dia na mão amiga, sempre presente em tudo isso, que nos livrou dos pesadelos. Saímos os dois pensando naquela mão amiga e na roupinha azul balouçando na corda do pátio vizinho. Perguntou-me ele, na despedida: - De quem mesmo é o dia de hoje?  
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Surrupiei do Wanderley Soares (outra vez!...) e com a maior cara de pau diante do furto tão furtivo ofereço a todas as Mães, no dia de hoje. E também, em particular, a todos os filhos.
Vando
Transcrito do jornal O SUL - Porto Alegre, Domingo, 13 de Maio de 2012.
Ilustração / Foto: “Roupas no Varal” © Eduhhz  


16 outubro 2011

Despertar

Hoje estou transcrevendo outra crônica de Wanderley Soares, colunista do Jornal O SUL, que todos os domingos oferece-nos seus textos primorosos. Vez por outra fico com uma inveja danada de seu talento. Ele escreve as coisas que eu queria escrever, mas não sei como. 

Não imagino quantos leitores ele tem. Uma infinidade, certamente. Entre estes eu me incluo e confesso sem nenhum constrangimento ser um de seus maiores admiradores. 

Durante a semana Wanderley escreve sobre temas áridos, relacionados basicamente com a crônica policial. Também leio, superficialmente, passando meio ao largo, já que o tema não me entusiasma de modo algum. Aos domingos, entretanto, ele se transfigura. É quando cumpro o ritual a que já me habituei: sento confortavelmente num recanto bem silencioso do apartamento ou junto à janela, de onde se pode vislumbrar o arvoredo sonorizado pelos sabiás, e saboreio cada frase de seus autênticos poemas em prosa, enquanto me questiono sobre a origem de tantas inspirações. 

Não consigo entender como é que alguém que se liga à árdua tarefa jornalística de registrar assuntos de segurança pública e relatar delitos, crimes, contravenções e chagas de uma sociedade em estado visível de decomposição cadavérica, consegue, de repente, fluir com inigualável talento, temas transcendentais de tamanha beleza.  

Já surrupiei outros, dele, transcrevendo-os anteriormente. Se continuar assim, Wanderely Soares vai terminar sendo presença constante em “Nós Aqui”, o que me envaidece, mas ao mesmo tempo, preocupa: e se ele decidir cobrar cachê? Como é que fica? Se isto ocorrer, já antecipo a solução. Vocês vão ter que me ajudar a levantar os recursos necessários. É. Uma “vaquinha” entre a Família. Tudo em nome de uma boa causa. Fica aí a sugestão.  

De qualquer modo, enquanto ele não se manifesta, vamos curtir as suas crônicas dominicais e deliciarmo-nos com a sua poética. Se não o lêem no “O SUL”, ofereço-lhes a oportunidade áurea de degustar o que ele escreve, aqui no nosso blog de circulação universal, já que somos lidos por blogueiros e internautas do mundo inteiro. Sem a menor modéstia. Graças a Deus. 

Vando

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Foto minha - da Série "Portais"
Tirada no dia 2-Set-2011
A viagem de retorno
Wanderley Soares
A vida na nascente não tem fim
Enfim, acordou. Deveria ser madrugada, talvez um fim de tarde. A luz seria da Lua cheia ou do Sol. Bem depois, muito depois, soube que aquele momento sucedera três anos após seu nascimento. Ao acordar, sentiu-se um rei sem saber o que era um rei, sentiu-se Deus sem saber o que era um deus. Sentiu-se gente e isso era a sua primeira verdade, mas que ele não a entendia assim ainda. Sabia apenas que estava na eternidade. Seria para sempre igual como a luz que começava a observar, fosse da Lua, fosse do Sol. Nada poderia mudar, pois estava pronto, perfeito. A vida na nascente não tem fim e talvez tenha sido essa a primeira ilusão que ele mesmo viria a contestar. Nem rei, nem Deus, nem eternidade
Havia uma escola com corredores e salas enormes, colunas majestosas, escadaria íngreme, um pátio imenso e uma professora muito alta e de olhos fascinantes que tudo sabia. Uma multidão barulhenta de imortais iguais a ele corria por todos os espaços e se escondia atrás de árvores gigantes que, assustadas, derramavam sombras, flores e folhas como num pranto, como numa gargalhada. O pátio tinha espaços que não lhe poupavam as pernas e muito lhe custava chegar de lado a lado numa correria cujo destino desconhecia, mas procurava. Um xerife maluco com um apito aterrorizante pedia silêncio, pedia que todos parassem. Queria ordenar tudo em silêncio, pois sua idéia de ordem era o silêncio
Em casa, sua mãe, como a professora, era uma criatura que também tudo sabia. O pai, de bigodes de fartos pelos e uma calvície avançada, parecia-lhe ter nascido no Brasil colônia, coisa que começava a aprender o que era com a sábia professora de olhos fascinantes. Seu cachorro tinha o tamanho de um tigre. Num élan, nunca soube exatamente quando começou a acontecer, sentiu-se maior e, a cada dia, sempre maior. E todo o seu universo passou a diminuir. As árvores, os pátios, as escadarias se apequenaram. O rei já não existia, o tal Deus lhe fugia entre os dedos das mãos. A vida não era mais eterna como a sentira em sua nascente. Desfizeram-se alguns sonhos e surgiram-lhe os primeiros pesadelos
Um dia, resolveu voltar ao lugar onde acordara. Queria experimentar um novo entardecer, uma nova madrugada. Descobriu, então, definitivamente, em sua viagem de retorno, que a vida não era eterna, que a professora não tinha olhos fascinantes e que nem tudo sabia, que as árvores não eram gigantescas. Entendeu que tudo lhe parecera imenso porque ele era pequeno no seu amanhecer para a vida. No entanto, ao se defrontar com seu mundo real, bem longe da nascente que fez dele um rei, um Deus, todas as coisas que para ele pareceram imensas, agora, por menor que fossem, ainda eram maiores do que ele, pois trituravam, impiedosamente, todos os seus sonhos. Sentiu-se velho, insignificante
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Transcrito do Jornal O SUL / Caderno Colunistas, pág. 4 - Porto Alegre, Domingo, 16 de Outubro de 2011.

25 setembro 2011

De volta do exílio

Um domingo de primavera.  
Wanderley Soares

Não havia ladrões a temer e o cão da casa era um cusco pequeno, sem autonomia para grandes saltos.
O chalé, erguido no centro do terreno, tinha feições modestas e acolhedoras. Era verde e exibia, à frente, um único janelão pintado de vermelho. As portas, nas laterais, davam acesso à sala, à copa e à cozinha. No fundo, um galpãozinho, em forma de meia-água, abrigava o banheiro e servia de depósito de ferramentas e outros trastes. Na lateral, um caramanchão de madressilva. Na frente, um jardim que tinha ao centro um cinamomo ainda jovem sob cuja sombra fora construído um banco tosco de madeira. A cerca era baixinha de ripas estreitas. Não havia ladrões a temer e o cão da casa era um cusco pequeno, sem autonomia para grandes saltos, que se contentava em latir para eventuais passantes desconhecidos.
No fim da infância, no belo início da juventude, ele decidiu partir com uma bagagem de sonhos que desde muito cedo aprendera a plantar. Deixou o jardim, suas flores, a sombra do cinamomo e sua madressilva. Iniciou a jornada que todos um dia tem de empreender. Levava dentro de si aquela força da terra fértil, aquele cheiro do verde vivo, aquela doçura da flor que nasce. Partiu, nunca olvidou disso, num primeiro domingo de primavera. Não marcou nenhum encontro para que, assim, a jornada iniciasse sem amarras. No entanto, não saiu descompromissado. Queria ampliar o seu jardim em algum lugar e, em algum lugar, transplantar e estender o domínio de sua madressilva sem cercados, sem fronteiras.
Estava no centro do sismo, no front, sem nenhuma outra arma a não ser a sua juventude imortal, sua alma não sofrida e seu espírito em chamas permanentes. Mas como não planejara nenhum encontro, não tardou a solidão. Diante dos primeiros revezes, evitava as grandes caminhadas noturnas e lhes apareceram os temores das jornadas do dia. Em meio a tudo, conseguiu construir o seu novo universo, mas teve parte dele destruído. Acostumou com os ruídos de todas as armas e aprendeu a se erguer e a ver e passar com indiferença sobre os corpos dos vencidos estendidos à sua frente. Sentia-se meio bicho, meio homem, mas era assim que conseguia entender e ser entendido pelos sobreviventes seus iguais.
Nos fins de tarde, exilava-se. Recordava o passado que já era maior do que o futuro. E o bom vinho inspirava navegações, alimentava esperanças, gerava sonhos que substituíam os que foram perdidos. Lá fora, visualizava todos em pedaços. Ali, no seu cantinho, a humanidade era reconstruída. E foi com novos sonhos que, numa dessas tardes, ele deixou o exílio e seguiu os impulsos do vinho. Planejou um novo mundo, uma nova forma de liberdade, um novo amor com a vida. Mas, ao ser envolvido pelo sol de uma nova primavera, recém fugitivo do velho inverno, entendeu que tudo o que pretendia era alcançar o chalé verde, a madressilva e o jardim. E ali, sob a sombra do cinamomo ancião, adormecer para sempre num banco tosco.
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Fonte: Jornal O SUL, Caderno “Colunistas”, página 4, domingo, Porto Alegre, 25 de setembro de 2011
Foto: Evandro (Jardim Botânico) – A original está no blog “RETRATOS DO MEU JARDIM”

20 março 2011

Leitura dominical - 2

A ÚLTIMA PERÍCIA
Hoje começa o outono, a mais romântica de nossas estações, aqui no Sul. É um dia que lembro da dolorosa solidão dos que vivem sem um Deus.

Encontrava-se na ilusão de não mais se surpreender. Sem medo do inesperado. Lembrava das tantas vezes que caíra e se erguera sem orações, sem a ajuda de Deus. Também os momentos de maior elevação não poderiam lhe causar vertigens nem dores maiores às horas em que esteve ao rés do chão. Afinal, já fora até feliz. Encontrava-se, acreditava, maduro. Entre as suas certezas estava a de nunca aceitar deitar-se exposto na prateleira das antiguidades. Antes deste repouso, seria melhor partir. Sentia-se forte na convivência entre jovens. Ah, esses jovens que pensam saber tudo e morrem jovens sem saber nada. Entre eles, divertia-se em silêncio quando medravam em suas cabeças sismos de sabedoria. As crises não o assustavam. Sob a sua vontade, a todas entendeu ter vencido sem que a sua história mudasse de curso. Nada poderia ser diferente.
Foi assim que ele retornou – lembrou do exorcista – com a sua maleta. Pequena bagagem antiga, companheira silenciosa de tantos anos, da qual não imaginava uma separação, a menos que ela sofresse algum mal irreparável. Ela, não ele.
A casa era pequena. Tinha os cômodos necessários. Estava há quatro semanas da turbulência final. Entrou solitário. Parecia ter deixado lá fora uma pequena multidão na expectativa de sua descoberta. Com cuidadosos passos de perito percorreu a sala com todos os seus olhos. Tudo em ordem. Os móveis simples. A pequena mesa com tampa de mármore, um cinzeiro sem cigarros nem cinzas. Uma estante com livros – O Inspetor Geral, Gogol – leu numa lombada. Sentiu-se um farsante. Esta sensação o envolvia sem raridade. O silêncio não o assustava. Nada o assustava.
Entrou na cozinha. Estranhou o abandono. Nenhum sinal de que ali tivesse ocorrido algum movimento, pelo menos nas últimas semanas. Pó sobre o fogão, armários fechados. O calendário sobre a geladeira estava com três dias de atraso. Numa pequena lixeira, um palito de fósforo queimado. Na área de serviço e no pátio, um aspecto de desolação. Um velho pano de prato balançava no secador. Na casinha do cachorro, desocupada, um pardal pousou assustado com a brevidade dos pardais. Num impulso, quis ver o quarto da menina. Lá, uma emoção dolorosa. Antes, um recanto com tanta vida, nada mais guardava além de móveis ocos. As paredes estavam despidas. Desaparecera a bruxa de pano, presente seu, que com seus grandes olhos verdes, enigmáticos e alegres, por tanto tempo ali esteve em vigília.
Caminhou, agora com passadas largas, pelo corredor que levava ao quarto que fora seu. Encontrou o que pressentira. A cama nua, os roupeiros abertos e vazios. Tudo lembrava um saque. A sua alma saqueada. Restavam apenas os vestígios de seus pedaços dilacerados, sem nenhum calor. Mas ainda tardava o gelo das coisas mortas. Jaziam ali as suas certezas, seus cabelos encanecidos e perdidos, sua ira, seu primeiro verso e o último conflito.
Pareceu-lhe ouvir gritos da multidão que lá fora aguardava pelo seu retorno. Amigos, vizinhos, parentes, gente curiosa que passava e parava. Sangrava o perito. Retornou à frente da casa. Era invisível à multidão. Deixou cair a velha maleta num canto. Sentiu-se assustado e na prateleira das antiguidades. Perdeu a frieza. Era a sua última perícia. Partiu em solidão. A dolorosa solidão sem Deus.
Wanderley Soares
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- O SUL, Porto Alegre, RS - Caderno Colunistas, página 4, domingo, 20 de março de 2011-
- Ilustração do Blog "MY OPERA"

23 janeiro 2011

Leitura dominical

NOSSOS MUROS E NOSSAS GRADES
Sou um repórter policial que, em minha torre, me fiz um humilde marquês , como tal, um gari, um catador de gestos humanos, um dissecador de almas. Nada mais do que isso.


Há manias, tiques nervosos, um certo jeito de viver, um vício qualquer, um gênero literário, são coisas assim que levam as pessoas a encontrar as chamadas almas irmãs. Mais do que isso, levam-nas ao amor além do fraternal, mesmo que nunca venham a se conhecer pessoalmente. O platonismo, em tempos de internet, nunca chegou antes a ser tão verdadeiro. Quando, ao acaso ou pela busca, acontece o encontro, materializa-se o instante mágico e passageiro. Passageiro por ser mágico e pleno de magia por ser efêmero e único. Inimaginável seria se a nossa viagem conservasse perenes as chamas do incêndio de um primeiro encontro.
Somos levados a essas emoções com amigos e amantes. Músicos, artistas de todos os gêneros, filósofos, estadistas, poetas, escritores, vivos ou mortos, fazem parte do nosso círculo de amores. E se pararmos diante deles – Greta Garbo, por exemplo – será possível sentir quão difícil é deixar de gostar das pessoas e o quanto pode ser fácil esquecer de quem traiu a nossa ternura. Diante deles é possível saber que não são poucas as pessoas que têm as mesmas manias e que encontraram muitos irmãos e amantes à distância ou vis-à-vis. O doloroso, ainda assim delicioso, é quando se tornaram diferentes os caminhos de nossos iguais.
Nesse plano em que aqui viajo é preciso construir túneis para fugir da angústia, que pode se tornar imensa. Há angustiados que não conseguem, em solidão, conviver com o seu círculo de amores. Deístas, materialistas, simples capitalistas e até socialistas visitam psicanalistas. É, afinal, um atalho para ir ao encontro de almas irmãs. Quem não tem a mesma sorte, realiza a sua busca em caminhadas ao relento. Fala com o infinito e, sem ser poeta, comete um poema que ninguém nunca lerá, canta, sem ser cantor, uma canção para ninguém ouvir e, sem saber beber, bebe e deixa, correndo todos os riscos, o coração governar o cérebro.
Tenho para mim que todo esse processo sempre foi, até em tempos que eu não vivi, uma busca do momento mágico e diabolicamente passageiro. Hoje ele é essa busca, mas também, cada vez mais, é a fuga de todas as formas de violência. É o temor das ruas, o medo de que a qualquer momento, em qualquer lugar, um bando de salteadores de black tie, em carros importados, com passaportes diplomáticos possa surgir para invadir nosso universo, violentar nossos sonhos, levar nossos valores. Não é isso apenas uma sensação física. Ela é plenamente subjetiva. A violência contra os nossos amores é um bandido e um fantasma.
Buscamos um refúgio, uma casamata. Todos os homens e todos os povos buscaram isso em todos os tempos. As antigas e modernas catedrais, os templos maçônicos, os palácios, símbolos do poder, são fortalezas. Restaram as praças, os jardins públicos, livrarias, bares e todos os recantos do amor com a fragilidade dos desarmados, devassáveis e até promíscuos. Por tudo isso, a nossa tendência é voltar no tempo, retornar nos séculos e crer no momento mágico. No entanto, prevaricamos, pois com a esperança de que as chamas do primeiro encontro voltem a arder, insanamente, esperamos por esse momento murando e gradeando os jardins de nossa casa e do nosso coração.
Wanderley Soares
(do Caderno Colunistas, página 4, do Jornal O SUL – Porto Alegre, RS, domingo, 23 de janeiro de 2011)
Foto: Encontrei no blog de GILMARA COLETTO / Um Pouco de Mim
Vando

16 novembro 2010

Os céus olham por mim

Sou uma pessoa de sorte. Quase sempre, quando mais me falta inspiração para escrever, chega-me às mãos por vias diversas algum texto pronto e, mais do que pronto, de tal primor, que não sinto o menor constrangimento de utilizá-lo, pelo prazer de compartilhar com vocês.

Claro que sempre tenho o cuidado de buscar, antes, a permissão do autor que, felizmente, nunca tem me faltado ou, na impossibilidade disto, de mencionar a fonte onde o encontrei.

Pois domingo passado, lendo O Sul, do qual sou assinante desde a sua primeira semana de circulação, li esta crônica do Jornalista Wanderley Soares e já na primeira leitura tive a convicção de que ali estava a minha salvação. Reli e re-reli para ter a certeza de que estava diante de um desses textos que eu gostaria de ter escrito. Mais uma vez os céus olharam por mim. Duvidam? Pois então confiram.

Vando.


A PAZ INTERIOR
Wanderley Soares
Sempre existirá a esperança de sair
a passeio e retornar ao mesmo ninho sem ser assaltado.


O homem era pequeno. Não chegava a ser anão. Um baixinho simpático e feio. É bem verdade que as luzes dos bares noturnos transformam as pessoas. As feias podem se tornar belas e as belas ainda mais belas. Mas aquela luminosidade morrediça não alterava a realidade do homenzinho. Seria, creio, o mesmo, ainda que à luz do sol. Não era velho. Apenas madurão. Mas era feio. Não desses feios insalubres, vampirescos, amarrotados pela poeira do tempo. Era um feio alegre, cheio de dentes, cabeleira vasta que se desguedelhou ao longo da noite. Não o conhecia. Deveria habitar em noites distantes da minha.

Era primavera. Primavera dessas loucas aqui do Sul. Fazia calor. Além disso, o ar condicionado, pifado, fora substituído por ventiladores que distribuíam o ar quente. Nada de importante nisso. Os notívagos chegam perfumados, refrescados pelo banho tomado. Depois, se acostumam com o cheiro da nicotina, do álcool e até mesmo com os pingos de suor alheio. Enriquecendo a festa, o homenzinho estava dentro de um folgado terno azul marinho, gravata com listras largas e oblíquas. No rosto, imensos óculos quadrados que, a toda hora, escorregavam e eram aparados pelas asas do nariz e recompostos com o dedo indicador.

Ele chegou solito, mas não foi longa a sua solidão. Buscou uma mesa próxima à pista. Tinha ares de quem se sentia em casa. Pediu um chope, que tomou sem pressa. Logo encontrou um par. Alegre como ele, pequenina e gordota. Gostaram-se, pois não se largaram mais. Dançaram toda a noite. Paravam só quando a banda parava. Ele afrouxou a gravata e a fralda da camisa lhe aparecia sob o casaco curto. Ela não se desalinhou. Sorria todo o tempo. Ele ria, parava, aplaudia a banda e atirava beijos para o mestre que acariciava os bordões de um violão de sete cordas.

Há quem canta sem saber cantar. Eles dançavam sem saber dançar. Ela a tudo acompanhava. A banda variava de ritmos. Mas nenhum deles era o dos passos dos dançarinos. A música, até vir a atingi-los, passava por um processamento mágico e lhes chegava como melhor a entendiam. Eram muitos os pares, mas eles faziam a festa como se fossem os únicos na pista. Ainda hoje, me foge a certeza se os outros dançantes notaram, como eu, a aparição dos baixinhos. Inclino-me a crer que, para aqueles que não estavam envolvidos na mesma felicidade, os baixinhos eram invisíveis.

A noite se desfazia e o dia já tentava invadir a casa pelas janelas. Os músicos guardavam seus instrumentos. Todos pagaram suas contas e se foram. Tomei eu também o meu rumo sem deixar de ensaiar uma reflexão no entorno da forma liberta com que aquele homenzinho e seu par viveram a madrugada. A paz interior, sonhada e distante, tão real e tão próxima, é ter trabalho e ganho para um terno azul marinho, a certeza da saúde boa, o direito de dançar a sua própria dança em meio a todas as danças. É ter a alegria de sair com a esperança do retorno ao seu ninho, sem ser assaltado, e a certeza de levar um amor no coração.

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Publicado no Caderno Colunistas, página 2, do jornal O Sul, de Porto Alegre, domingo, 14 de novembro de 2010.

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Ilustração: Editada por mim sobre gravura original do site PIXMAC