A FAMÍLIA

"É preciso fazer realmente todo o esforço possível, para que a família seja reconhecida como sociedade primordial e, em certo sentido, soberana. A sua soberania é indispensável para o bem da sociedade. Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro". (João Paulo II em “Carta às Famílias” / 2 de fevereiro de 1994)

01 março 2013

Caça às bruxas

A ORFANDADE DO TEXTO

   De uns tempos para cá, decidi que vou me dedicar à caça de bruxas. E a bruxa que passarei a perseguir chama-se "AUTOR DESCONHECIDO" que, na maior parte das vezes, também aparece camuflado com os nomes de autores consagrados, para dar credibilidade a textos quase sempre sofríveis. 

   Penso que, via de regra, quem os transcreve ou copia não o faz por maldade. Apenas por incompetência. Ignorância. Preguiça de pesquisar. Burrice. Comodismo. Ou, simplesmente, modismo, para não mencionar outros "ismos". Acha bonito. É "chic" passar mensagens com versinhos, poemas, frases de efeito e que tais. Então, pega uma matéria qualquer, ao acaso, enfeita-a com seu "toque pessoal" e valoriza-a com a assinatura de uma vítima famosa, que jamais leu nem conhece e de quem só vagamente ouviu falar. Afinal, ninguém vai pesquisar, mesmo! Grande parte dessas “vítimas” já morreu, não tem como reclamar e poucas pessoas se dão ao trabalho de buscar o verdadeiro autor e sair em sua defesa.

   É inimaginável a quantidade de material que rola por aí, contendo citações, versos, crônicas inteiras e até… versículos da Bíblia e dos Evangelhos (!!!) “assinados” por Mário Quintana, Shakespeare, Machado de Assis, Chico Xavier, Camões, Padre Antonio Vieira – é, até ele, o querido "Vieirinha" já entrou no baile – e uma porção sempre crescente de outros. Veja-se, por exemplo, o que circula no Facebook e em outros “faces”, além dos absurdos que detectamos em alguns sites até bem conceituados que se dedicam à !literatura”.  

   Pelo pouquíssimo que conheço de Shakespeare – e deveria conhecer melhor o maior dramaturgo que o Planeta Terra já conheceu – tento imaginá-lo dizendo – ou escrevendo – coisas do tipo "… importa não o que você tem na vida mas quem você tem na vida", ou "se você não sabe onde está indo pouco importa o caminho". Esta última, se não me engano, foi a resposta de um gato à pergunta de Alice, meio perdida no País das Maravilhas, obra clássica do por demais conhecido Charles Lutwidge Dodgson (7 de janeiro 1832 – 14 de janeiro de 1898). Pois dia desses recebi uma apresentação de slides com um poema imenso no qual estavam incrustadas pérolas como aquelas, devidamente autenticadas com a assinatura do grande Bill

   E o que dizer dos abjetos e odiosos textos de “autor desconhecido” simplesmente? Que valor tem um poema, uma epígrafe, uma citação qualquer que não tenha o aval de seu autor ou no mínimo a menção de sua fonte? As frases se criam sozinhas? Os pensamentos não são coordenados ao acaso, por um passe de mágica. Lembram de Allan Kardec, em sua obra da “codificação”, quando afirma que “não há efeito sem causa”?

   Com certeza alguém escreveu os textos escritos por "autor desconhecido” que se lêem nos jornais de bairro, nos almanaques de farmácia e até em publicações bem mais sérias e responsáveis, como em diversos sites escolares e até de escolas conceituadas, como subsídios literários. Mas quem os escreveu? E por que não teve coragem de assiná-los ou se identificarem com um pseudônimo? Ou, pior ainda, por que alguém teria tido o desplante de surrupiá-los a seus verdadeiros autores e inserido neles baboseiras que a “vítima” a quem são atribuídos jamais escreveu? Enquanto isto, os que circulam pela internet, como mensagens, vídeos, slides e outras formas, crescem desmesuradamente em quantidade e falta de criatividade, a cada novo dia. 

   E eu fico aqui, a conjeturar com os meus desgastados botões, sobre a verdadeira paternidade dos pobres textos em sua aparente orfandade. Irrito-me. Estresso-me. Revolto-me. 

   Sim. Vou satisfazer à minha sede incontrolável de caçar bruxas. Não sei exatamente como começar. Talvez através de algum exame de DNA eu chegue ao resultado a que me propus. Sei que vai dar trabalho. Não vou salvar todos os textos deserdados. Mas certamente, reconduzirei um que outro de volta aos braços de quem verdadeiramente os gerou. Será um reencontro emocionante, posso antever. 

    Então, mãos à obra. O trabalho é hercúleo e o tempo urge.

Vando
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Ilustração: do site “MEMÓRIAS DOSUBSOLO

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