A FAMÍLIA

"É preciso fazer realmente todo o esforço possível, para que a família seja reconhecida como sociedade primordial e, em certo sentido, soberana. A sua soberania é indispensável para o bem da sociedade. Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história. A família está no centro de todos estes problemas e tarefas: relegá-la para um papel subalterno e secundário, excluindo-a da posição que lhe compete na sociedade, significa causar um grave dano ao autêntico crescimento do corpo social inteiro". (João Paulo II em “Carta às Famílias” / 2 de fevereiro de 1994)

24 agosto 2012

Caserna e lar

DIA DO SOLDADO
Por mais de trinta anos ele usou a farda verde-oliva. Cotidianamente. E desde então, jamais soube viver sem ela. Mesmo passados vinte e cinco anos (um quarto de século!) de quando cruzou o portão das armas pela última vez, ela ainda faz parte de sua vida. Raras as noites em que, em sonho, a veste sagrada que o envolveu da juventude à maturidade não está presente.
Que estranho magnetismo faz com que tal fenômeno se perpetue no decorrer do tempo? Que magia existe que torna persistente, ainda que apenas de forma espiritual, uma realidade gravada, etérea,  nos escaninhos mais recônditos do Universo?... – são questionamentos que ele faz a si próprio.
Surpreende-se, vez por outra, ao pensar em como os episódios da vida se conjugam, se assimilam reciprocamente, se entremeiam, se sobrepõem.   
Foram mais de trinta anos em que tudo acontecia ao mesmo tempo. Mesclavam-se a vida castrense e a vida no lar, mas de forma sincronizada e harmônica, como que por graça de alguma fada-madrinha que em momento algum deixou de estar por perto.
Lembra-se das viagens infinitas, das transferências, das mudanças de paisagens. Lembra as gentes que no caminho passaram a percorrer juntas ou que, logo ali, tomaram outros rumos. Recorda, com saudade, os velhos companheiros de caserna -  das muitas casernas! -, os comandantes nem sempre bem compreendidos, os soldados (os “seus meninos”) – aos quais tratava não só como irmãos mais novos, mas como filhos.
No fundo da memória não se lhe ofuscam as formaturas diárias, os desfiles e as paradas engalanadas, os momentos solenes da continência à Bandeira mais linda e querida entre todas as demais e aos acordes do Hino que aprendera a cantar ainda quando criança, nos primeiros anos da escola primária. Voltam-lhe à imaginação os comboios imensos por estradas poeirentas, os acampamentos, a silhueta indefinida das barracas camufladas, os exercícios constantes sob a chuva fria ou o sol inclemente, as marchas forçadas através de trilhas muitas vezes desconhecidas, os dias exaustivos e as noites não dormidas embora estivesse o céu estrelado.
A seus  ouvidos não cessam de chegar nostálgicos, quase em murmúrio, o retumbar das granadas, dos fuzis e dos obuses cruzando os céus, e as notas dos clarins atravessando o éter nos toques de silêncios e de alvoradas em pleno campo muitas vezes coberto pelas geadas ou amarelado pelas longas estiagens.   
Em sua divagação, faz uma pausa e deixa-se embalar pelo som do silêncio. A digressão é inevitável.
Quantos foram os seus natais longe de casa, da mulher, dos filhos?!... E as páscoas sem coelhinho, os aniversários do primogênito, do “segundo” e do “caçula” sem abraçá-los e sem soprar com eles as velinhas?!... Em quantos domingos e feriados não jogou bola com eles nem os levou para brincar na pracinha?!... E as vezes que, distante, só ficou sabendo depois do regresso, que algum dos filhotes precisou de socorro médico, e que a mulher – a eterna lugar-tenente – evitando causar-lhe apreensão, havia, mais uma vez, se desincumbido sozinha da missão...  
Lar e caserna! Caserna e lar! Como foi possível tal conciliação? Onde terminava um e começava o outro? Reflexões e mais reflexões!... Os personagens desta história talvez saibam explicar.
...
A farda verde-oliva continua nele. Aderida, indelevelmente, em seu ser. Em sua alma. Faz parte de sua vida e de sua história. Com ela aprendeu o valor da honra. Da dignidade. Da dedicação, da solidariedade, da resignação, da responsabilidade. Do cumprimento irrestrito do dever. Do amor à Pátria à qual tudo deve dar e nada pedir em troca – nem compreensão nem descanso.  
Hoje, à véspera de mais um DIA DO SOLDADO, ressurgem diante dele todas as peripécias em suas variadas nuances: as separações momentâneas e aquelas definitivas; as ausências consentidas, as desilusões e tropeços, o desconforto e o cansaço, as preocupações e os receios. Mas vêm acompanhados da incontida emoção, das certezas e da crença nos ideais, fortalecendo-lhe a convicção de que foi fiel à sua vocação e soube fazer, do melhor modo, o que lhe competia.
Desde seu âmago emergem tais reminiscências envoltas em terna melancolia. E diante delas, nenhuma dúvida persiste. Ele sabe que  se neste instante lhe fosse oferecida a possibilidade de um retorno ao passado, não vacilaria em recomeçar tudo de novo. Ingressaria outra vez no seu Exército e voltaria a vestir a farda verde-oliva. Exatamente como da primeira vez.
Vando
* * *
Foto minha
Publicada em
RETRATOS DO MEU JARDIM” – 31 Mar 2009

Um comentário:

Ricardo Montedo disse...

Olá!
Gostei muito do texto e o publiquei em meu blog.
Parabéns!